Roubo de celular expõe suposta rede de tráfico ligada ao Comando Vermelho

Criminoso usava aparelhos diferentes para separar vida pessoal das atividades ilegais, mas tentativa de recuperar telefone roubado acabou deixando rastros para a polícia

Roubo de celular expõe suposta rede de tráfico ligada ao Comando Vermelho
Roubo de celular expõe suposta rede de tráfico ligada ao Comando Vermelho (Foto: Reprodução)

Um roubo ocorrido em um semáforo de Fortaleza (CE) acabou se transformando em uma importante pista para uma investigação sobre uma suposta rede de distribuição de drogas ligada ao Comando Vermelho.


O aparelho pertencia a Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, conhecido entre integrantes do crime pelos apelidos de “Gordão” e “Boss”. Segundo as investigações, ele seria um dos principais fornecedores de drogas para integrantes da organização criminosa.


A estratégia utilizada por Laércio para tentar separar sua vida pessoal dos negócios ilegais acabou contribuindo para que os investigadores identificassem suas conexões.


Tentativa de recuperar o celular deixou rastros


De acordo com a investigação, Laércio utilizava diferentes aparelhos telefônicos. Um deles era destinado às atividades relacionadas ao tráfico e acabou sendo levado durante o assalto.


Preocupado com as informações armazenadas no telefone, ele passou a utilizar o aparelho pessoal para tentar localizar o celular roubado.


O problema é que, segundo os investigadores, o telefone pessoal estava associado a arquivos armazenados em serviços de nuvem. Além disso, Laércio voltou a utilizar o número para conversar com integrantes da rede criminosa e tratar de assuntos relacionados a cargas de drogas.


Com autorização judicial, policiais tiveram acesso a dados de linhas telefônicas e contas na nuvem vinculadas ao investigado.


Preocupação com informações armazenadas


Em uma das gravações obtidas durante a investigação, Laércio demonstra preocupação com o conteúdo do aparelho roubado.


O temor, segundo os investigadores, estava relacionado ao fato de o telefone conter o contato de um motorista que teria participado do transporte de uma carga de drogas.


Em um áudio, o investigado menciona ter investido aproximadamente R$ 3,5 milhões e afirma ter acionado integrantes do crime no Ceará para tentar localizar o aparelho.


A tentativa de recuperar o telefone acabou ampliando o conjunto de informações disponíveis para os investigadores.


Investigação aponta atuação como fornecedor


Entre os contatos identificados está Anderson Sant’Anna da Silva, conhecido como “Gão”, apontado pela investigação como responsável pelo tráfico em uma comunidade da Zona Norte do Rio de Janeiro.


Os investigadores passaram a cruzar mensagens, pagamentos e outros dados para tentar dimensionar a atuação de Laércio na distribuição de drogas.


Ainda não foi possível estabelecer exatamente a quantidade de entorpecentes que teria sido movimentada pelo investigado. Uma apreensão realizada em São Paulo, porém, ajudou a polícia a dimensionar o volume atribuído à rede.


Mais de 715 quilos de drogas foram apreendidos


Em fevereiro de 2024, policiais civis de São Paulo investigavam um galpão em Guarulhos quando abordaram um caminhão.


Durante a operação, foram encontrados mais de 715 quilos de cocaína e maconha escondidos nos tanques de combustível do veículo.


Meses depois, investigadores do Rio identificaram Laércio como o homem conhecido como “Boss” e cruzaram as informações obtidas nas conversas com os dados relacionados à apreensão realizada em Guarulhos.


Segundo a investigação, esse cruzamento indicou que a carga apreendida pertencia a Laércio.


O material deverá ser encaminhado ao Ministério Público de São Paulo para subsidiar uma eventual denúncia relacionada ao tráfico de drogas.


Conversa com pastor também entrou na investigação


Outra conversa analisada pelos investigadores chamou atenção por envolver Laércio e um pastor.


No diálogo, o investigado comenta uma apreensão de drogas realizada no Rio de Janeiro e relaciona o episódio a uma pregação religiosa que havia ouvido anteriormente.


Durante a conversa, Laércio pergunta sobre uma suposta “revelação” relacionada a pessoas que estariam planejando uma ação contra ele. O pastor responde mencionando uma pregação sobre uma conspiração e uma suposta proteção divina.


Para os investigadores, os diálogos fazem parte do conjunto de elementos reunidos para compreender a rotina e as relações mantidas pelo suspeito.


Como o celular virou uma pista


A investigação mostra uma sequência que começou com um crime aparentemente isolado: o roubo de um celular em Fortaleza.


Ao tentar recuperar o aparelho usado para tratar de atividades criminosas, Laércio passou a utilizar outro telefone, deixando novos registros de contatos e conversas.


A partir dessas informações, com autorização judicial, a polícia conseguiu aprofundar a investigação e cruzar dados de diferentes operações.


O caso agora reúne informações sobre possíveis fornecedores, transportadores e integrantes de uma rede que, segundo os investigadores, estaria ligada ao fornecimento de drogas para o Comando Vermelho.

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